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Feliz carnaval


Não sei que diabo dá nas pessoas em final de ano. Ou seria uma breve ausência dele? Do diabo? Não.

Surtaríamos todos se não tivéssemos um pouquinho que fosse de maus pensamentos, maus sentimentos. Por um instante que seja. Não apologizo o mau. Nem sou seu defensor. Mas imagina como seria se acordasse um dia incapaz de sentir nem uma gota de inveja. Seu vizinho é promovido, reforma a casa, troca o carro, a mulher...

 (Concordo, a mulher nem todos precisamos trocar, mas uma reformazinha na casa, um carro novo...)

Espero que estejam me entendendo, pois quando digo que precisamos de caracteres diabólicos, não falo que sejamos maus, mas que precisamos de sentir um pouquinho de ciúmes, de inveja, de raiva, até de ódio às vezes.

Contudo, voltando ao início....

O que dá nas pessoas no final do ano não é ausência do demo de forma alguma. É apenas uma de suas características se sobressaindo sobre as demais. A falsidade. O sujeito não te encara o ano inteiro (ou melhor, só te encara), chega o natal o filho da mãe quer te abraçar!? Quer me ver feliz no ano que começa? Pague minhas contas. Me dê dinheiro! Que já aprendi: não traz felicidade; entretanto há de me fazer feliz. Pra piorar, o natal ainda cai do lado do ano novo. E os dois, no verão. Uma manada de gente suada se abraçando, depois de passarem o ano todo falando mal um do outro pelas costas. O ano novo ainda consegue ser mais simpático, porque não me vejo obrigado a passá-lo ao lado de ninguém.

Contudo, se não tivesse o carnaval no meio do caminho, eu passaria a páscoa num retiro. Juro! Claro que levaria no mínimo uma garrafa de vinho pra ter o que fazer lá, mas pelo menos fugiria dos abraços e da palavra “feliz”. Porque sempre começo o ano com asco dessa palavra. Palavra que, inclusive, associo à falsidade. Tenho birra de datas em que as pessoas se felicitam. Feliz isto, feliz aquilo, abraça de cá, abraça de lá, e bate aquela vontade de mandar todo mundo pro céu.

Por isso, sincero mesmo é o carnaval. Alguém te olha, se aproxima, te abraça e você sabe: quer foder com você. Nada de votos, felicitações, nem presentes. Nada de abracinhos e tapinhas nas costas. Cambaleiam pelas ruas não só por causa do álcool que ingerem. A tontura é também efeito do mal-estar da vida medíocre que levam. É por isso que bebem. O vômito no dia seguinte nada mais é que a vontade de se libertar. Mas não se libertam. E quando a quarta-feira chegar, implorarão pela próxima sexta, o próximo feriado, as próximas férias, pelo próximo carnaval. Mas não se lembrarão - oh não mesmo! – do próximo natal.


Caos


Não nasci com dom algum
Talento algum
Inteligência alguma

Vaguei meus anos tentando entender o mundo à minha volta
Tentando entender-me também

Pensei que talvez houvesse algo para mim neste mundo
Mas sempre nada encontrei

Nasci sem destino
Vocação
Sorte

Nasci vazio

E todas as tentativas de preencher-me
Foram em vão

Todas as minhas tentativas foram em vão

Não me encontrei
Em nada que fiz
Em nada que tive
Em nada que sou

No fim
O que me resta é sempre o vazio

O nada

O nada que sou
O nada que tive
O nada que fiz

Não possuí nada neste mundo
Nem mesmo a mim

Não construí nada também

Não fiz nada
Não tive nada
Não sou nada

Perdi meus anos

Pois nasci perdido


Perdido tentando em vão me encontrar
Tentando em vão encontrar algum sentido pra vida

Tentando entender
A vida que não tenho
O nada que sou

Tentando entender
Mas está fora de meu alcance entender qualquer coisa

Não serei um salvador
Não farei coisas grandes
Nem as terei

Nada que eu fizer
Ou ter
Preencherá meu vazio

Nada que eu fizer fará sentido

Terei sempre o caos à minha volta
Minha vida bagunçada igual ao meu quarto
Desorganizada igual às minhas gavetas

Uma vida sem grandeza
Igual aos meus versos
Meus atos

Perdido

Porém perdido num mundo perdido

Mundo perdido
Sem coragem para confessar
O quanto é falho
Fraco
Caótico

Perdido
Entre perdidos

Perdido
Entre perdidos que não se assumem
Não se encaram
Não se aceitam




Perdido
E sem destino

Ou talvez predestinado

A nada ter
Nada fazer
Nada ser

Igual a todos os outros


Banquete


Eu pisei na vida.

Convidei para um jantar
Os vermes que comerão meu cadáver.

Foram hostis.

Pensaram ser mentira minha simpatia.

Vermes malditos!

Preciso de ter a certeza de que este malfadado corpo
Deixará de existir um dia.

Adeus

Vem um dia a morte
Tal qual a sorte
Ou o azar:
Inesperada.
Talvez não me dê o ensejo
De me despedir.

Antecipação de um dia infortúnio,
Longínquo e futuro (espero)

...estes versos são...

Minhas mãos
Apertando outras mãos,
Meu último abraço
A uma pessoa querida:


Minha despedida.

Ansiedade

Algoz do presente,
Fantasma do futuro,
Diante de ti meu coração acelera.
Minha mente,
Achando-se esperta,
Acredita prever o porvir,
Dando-lhe uma triste perspectiva.

Meu presente,
Inconsciente e imaturo,
Esquece que ele
É que é a Vida.

Às vezes,
Percebo e tento combater o teu mal,
Luta vã, pois
Sempre volto a teu estado irracional.

O quê que há, velhinho?

Não me lembro que dia da semana era. Me lembro apenas que voltava, cansado, de mais um dia de serviço. Também não sei, naquele momento, por onde andavam minha atenção e imaginação.
Estava sentado no fundo de um ônibus. Lotado. Horário de pico. Várias pessoas em pé. Todas com aquela expressão amarga, tão comum nos rostos quando estão indo ou voltando do trabalho.
De repente, uma agitação. Saio de minhas divagações e volto para o ônibus. Alguma coisa colocara um sorriso nos rostos deprimidos à minha volta: uma mulher oferecia o lugar para um senhor se sentar, mas ele recusava.
Tratava-se de um tiozinho de uns oitenta anos. Pessoas dessa idade geralmente ficam sentadas (ou em pé) na parte da frente do ônibus, onde há lugares reservados para elas. Mas este senhor estava no fundo do ônibus. (Talvez as tiazinhas lá da frente não eram interessantes o bastante para que ele ficasse no lugar que lhe foi reservado. Não sei.)
Em pé ao lado dele: uma bela jovem; já ao lado da mulher que lhe oferecia o lugar: um homem. O tiozinho queria o lugar, mas queria que o cara sentado também se levantasse para que a jovem em pé sentasse ao seu lado.
Velhinho esperto!
Ele queria o lugar. Mas a condição para aceitá-lo era que a moça também se sentasse. Os passageiros acharam engraçada a situação. E, como o homem se recusou a se levantar, o velhinho, já que a moça não iria sentar ao seu lado, negou o lugar oferecido, permanecendo em pé. Foi esse o motivo da agitação e dos sorrisos.
Alguns minutos depois, um passageiro se levantou para descer. Ao lado dele, uma moça, nova e bonita, pele morena, cabelo comprido. Sugeriram o lugar ao velho. Desta vez, aceitou.
Sentou-se. Mais sorrisos dos passageiros. Brincadeiras. Piadas. Mas o velho parecia ignorar. Tanto que puxou conversa com a morena. De onde estava, eu não conseguia ouvir o que ele dizia, apenas via que a moça o respondia.
Mais alguns minutos e ela se levanta. Deu sinal. Ia descer. O velho? Se levantou também. Antes que o ônibus parasse, ele lhe dirigiu mais algumas palavras. Novamente, não pude ouvir, mas queria, para alimentar ou eliminar os maldosos pensamentos que me vinham à mente.
O ônibus parou. Os dois desceram... talvez fosse também o ponto do velho, por que não?
O ônibus partiu, o velho e a gostosa ficaram no caminho. Todos sorriam.
A passageira ao meu lado comentou a situação: “Esses véi tarado, num guentam mais nada e ficam atrás de menina nova, se pelo menos fosse novo igual você, tudo bem, mas nessa idade...”.

Lembrei que hoje existem remédios que podem ajudá-lo. Mas não disse nada. Apenas sorri e a observei. Infelizmente não era atraente como as meninas do velhinho. E voltei para minhas divagações, perguntando-me: o que queriam o velho e a passageira ao meu lado...